Ensaio
No seio das modernas sociedades capitalistas, os diversos conteúdos simbólicos adquirem valor de mercado. O desenvolvimento de certos meios técnicos, entre os quais a imprensa, a fotografia e o cinema, permitiu um alto grau de fixação e reprodutibilidade destes conteúdos simbólicos. Assim, procedeu-se à reprodução e à multiplicação das formas simbólicas no tempo e no espaço.
As obras de arte, enquanto formas simbólicas recriadoras da realidade, também são passíveis de reprodução. Merleau-Ponty apud Chaui (2005) dizia que a arte é advento – um vir a ser do que nunca antes existiu –, como promessa infinita de acontecimentos – as obras dos artistas. Toda obra artística, portanto, está associada à “transfiguração da realidade numa outra, nova e existente apenas no trabalho realizado pelo trabalho do artista” (CHAUI, 2005, p. 273). Neste sentido, há que se considerar se a reprodução de uma obra de arte não a destitui de seu mais eminente e puro atributo: a unicidade. Cabe, aqui, o seguinte questionamento: a reprodução da arte, na indústria cultural, propicia, efetivamente, a sua democratização?
Para Adorno e Horkheimer (1985), primeiros a usar a expressão “indústria cultural”, esta indústria estaria na base do totalitarismo moderno, ao promover a alienação do homem. As entidades culturais, transformadas em mercadorias, apontam para os efeitos da sociedade capitalista, em cujo cerne a cultura convertera-se em indústria. Visando principalmente à criação de diversões e distrações, a indústria da cultura proporciona uma evasão do mundo que é inautêntica: seus produtos tão somente reproduzem e reforçam a estrutura do mundo do qual as pessoas procuram se evadir.
Tecendo considerações sobre a arte cinematográfica, Adorno e Horkheimer (1985) afirmam que a indústria cultural transforma ficção em prolongamento da realidade. O espectador percebe a rua por onde passa como continuidade do filme, justamente porque a norma da produção exige que o cinema reproduza, dentro de si, o mundo da percepção cotidiana. Assim, “o mundo exterior é o prolongamento sem ruptura do mundo que se descobre no filme” (p.118).
As obras de arte, postas a serviço da indústria cultural, foram reproduzidas em série segundo as diretrizes do capital industrial. Escrevem Adorno e Horkheimer (1985):
A indústria cultural pode se ufanar de ter levado a cabo com energia e de ter erigido em princípio a transferência muitas vezes desajeitada da arte para a esfera do consumo, (...) de ter aperfeiçoado o feitio das mercadorias. (...) Sua vitória é dupla: a verdade, que ela extingue lá fora, dentro ela pode reproduzir a seu bel-prazer como mentira (p. 126).
Diferentemente de Adorno e Horkheimer, Benjamin (2000) vê nas novas técnicas de reprodução a possibilidade de uma democratização da cultura, uma vez que as obras de arte tornam-se acessíveis às massas. No seu famoso ensaio, intitulado A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, Benjamin discorre sobre as transformações infligidas às obras de arte pelas novas técnicas de reprodução. Segundo ele, as obras de arte eram aprisionadas pela religião, apresentando, antes de tudo, um “valor de culto”. Com a reprodução e a multiplicação destas obras pelos meios técnicos, foi destruído o que ele considera como aura da obra artística: a sua dimensão de singularidade, situada num espaço e num tempo definidos. Sobre a aura, escreve Benjamin:
Em suma, o que é a aura? É uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja. Observar, em repouso, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós, significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho (apud CHAUI, p. 278).
A obra de arte, que nas tradições primevas sempre esteve vinculada à atmosfera religiosa, adquiriu autonomia, perdendo a sua aura sagrada para ganhar dimensão social. Chaui (2005) comenta a respeito da “quebra” da aura:
A perda da aura decorre, antes de mais nada, do desejo de quebrar a distância e a transcendência dos objetos artísticos, cuja distância e transcendência provinham de serem únicos e de se encontrarem em locais onde apenas alguns podiam contemplá-los. Essa quebra tornou-se possível graças à reprodução técnica das obras de arte (p. 279).
Dessa forma, a obra de arte passa a estruturar-se a partir de uma nova organização da recepção e da percepção da arte. Ao perder o seu valor de culto, a arte ganhou valor de exposição: emancipou-se do ritual para ganhar dimensão política. A dissolução da aura, portanto, possibilitou um novo relacionamento das massas com a arte: esta, através da diversão, penetra nas massas, realizando tanto a função de diversão quanto de crítica social. O público do cinema seria, então, “um examinador que se distrai” (BENJAMIN, 2000, p. 252).
Entretanto, se, de fato, as artes haviam se tornado autônomas ou se libertado da submissão à religião, tornaram-se reféns das regras do mercado capitalista e se incorporaram aos domínios da indústria cultural. Chaui (2005) afirma que Benjamin desconsiderou o fato de que “a reprodução e a distribuição das obras seriam feitas por empresas capitalistas, visando ao lucro e não à democratização das artes” (p. 290).
Desse modo, a perda da aura não promoveu a democratização da arte: deu-se apenas a sua massificação, isto é, a sua comercialização em série. As obras de arte, originalmente críticas, expressivas e inovadoras, tiveram seus conteúdos simbólicos parcial ou mesmo totalmente anulados. Além disso, são convertidas em meros modismos, formas efêmeras, que só permanecem enquanto são potencialmente vendáveis.
Segundo Chaui (2005), a indústria cultural não tem quaisquer interesses democráticos. Ao contrário, ela promove a distinção entre os bens culturais pelo seu suposto valor de mercado, de modo que nem todos podem pagar por eles. Através da seleção de horários dos programas de rádio e televisão, de separação de preços dos jornais e revistas, ela seleciona de antemão o que cada um pode e deve ouvir, ver ou ler. Por fim, define cultura como lazer e entretenimento, extirpando das obras tudo o que represente trabalho da sensibilidade, da inteligência, da crítica e da reflexão. Afirmam Adorno e Horkheimer (1985):
Atualmente, a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural não precisa ser reduzida a mecanismos psicológicos. Os próprios produtos (...) paralisam essas capacidades em virtude de sua própria constituição objetiva. São feitos de tal forma que sua apreensão adequada exige, é verdade, presteza, dom de observação, conhecimentos específicos, mas também de tal sorte que proíbem a atividade intelectual do espectador, se ele não quiser perder os fatos que desfilam velozmente diante de seus olhos. (...) Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho (p. 119).
Admitir a democratização da arte pelas vias da reprodução técnica implica em destituir os significantes que lhe conferem singularidade, local histórico e valor cultural, pois eles não acompanham em anexo o célere binômio oferta-consumo advindo do capitalismo que o configura. Assim, a atividade artística e a produção cultural são espaços que exigem apreciação apurada e se dão de forma elaborada. A velocidade do fluxo comercial destas obras submetidas a industrializações, ditas democráticas, hipnotiza a massa consumidora, que não percebe absorver, a nível superficial, algo modificado desde o seu cerne.
A democratização das obras de arte, como desejava Benjamin, não ocorreu: nem todos têm acesso a elas, mesmo porque este é apenas parcial. A reprodução em série e descontextualizada oferece apenas a ilusão de que se teve contato com a obra artística.
REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor W. & HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. 2. ed. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: LIMA, Luis Costa. Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005.
As obras de arte, enquanto formas simbólicas recriadoras da realidade, também são passíveis de reprodução. Merleau-Ponty apud Chaui (2005) dizia que a arte é advento – um vir a ser do que nunca antes existiu –, como promessa infinita de acontecimentos – as obras dos artistas. Toda obra artística, portanto, está associada à “transfiguração da realidade numa outra, nova e existente apenas no trabalho realizado pelo trabalho do artista” (CHAUI, 2005, p. 273). Neste sentido, há que se considerar se a reprodução de uma obra de arte não a destitui de seu mais eminente e puro atributo: a unicidade. Cabe, aqui, o seguinte questionamento: a reprodução da arte, na indústria cultural, propicia, efetivamente, a sua democratização?
Para Adorno e Horkheimer (1985), primeiros a usar a expressão “indústria cultural”, esta indústria estaria na base do totalitarismo moderno, ao promover a alienação do homem. As entidades culturais, transformadas em mercadorias, apontam para os efeitos da sociedade capitalista, em cujo cerne a cultura convertera-se em indústria. Visando principalmente à criação de diversões e distrações, a indústria da cultura proporciona uma evasão do mundo que é inautêntica: seus produtos tão somente reproduzem e reforçam a estrutura do mundo do qual as pessoas procuram se evadir.
Tecendo considerações sobre a arte cinematográfica, Adorno e Horkheimer (1985) afirmam que a indústria cultural transforma ficção em prolongamento da realidade. O espectador percebe a rua por onde passa como continuidade do filme, justamente porque a norma da produção exige que o cinema reproduza, dentro de si, o mundo da percepção cotidiana. Assim, “o mundo exterior é o prolongamento sem ruptura do mundo que se descobre no filme” (p.118).
As obras de arte, postas a serviço da indústria cultural, foram reproduzidas em série segundo as diretrizes do capital industrial. Escrevem Adorno e Horkheimer (1985):
A indústria cultural pode se ufanar de ter levado a cabo com energia e de ter erigido em princípio a transferência muitas vezes desajeitada da arte para a esfera do consumo, (...) de ter aperfeiçoado o feitio das mercadorias. (...) Sua vitória é dupla: a verdade, que ela extingue lá fora, dentro ela pode reproduzir a seu bel-prazer como mentira (p. 126).
Diferentemente de Adorno e Horkheimer, Benjamin (2000) vê nas novas técnicas de reprodução a possibilidade de uma democratização da cultura, uma vez que as obras de arte tornam-se acessíveis às massas. No seu famoso ensaio, intitulado A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, Benjamin discorre sobre as transformações infligidas às obras de arte pelas novas técnicas de reprodução. Segundo ele, as obras de arte eram aprisionadas pela religião, apresentando, antes de tudo, um “valor de culto”. Com a reprodução e a multiplicação destas obras pelos meios técnicos, foi destruído o que ele considera como aura da obra artística: a sua dimensão de singularidade, situada num espaço e num tempo definidos. Sobre a aura, escreve Benjamin:
Em suma, o que é a aura? É uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja. Observar, em repouso, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós, significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho (apud CHAUI, p. 278).
A obra de arte, que nas tradições primevas sempre esteve vinculada à atmosfera religiosa, adquiriu autonomia, perdendo a sua aura sagrada para ganhar dimensão social. Chaui (2005) comenta a respeito da “quebra” da aura:
A perda da aura decorre, antes de mais nada, do desejo de quebrar a distância e a transcendência dos objetos artísticos, cuja distância e transcendência provinham de serem únicos e de se encontrarem em locais onde apenas alguns podiam contemplá-los. Essa quebra tornou-se possível graças à reprodução técnica das obras de arte (p. 279).
Dessa forma, a obra de arte passa a estruturar-se a partir de uma nova organização da recepção e da percepção da arte. Ao perder o seu valor de culto, a arte ganhou valor de exposição: emancipou-se do ritual para ganhar dimensão política. A dissolução da aura, portanto, possibilitou um novo relacionamento das massas com a arte: esta, através da diversão, penetra nas massas, realizando tanto a função de diversão quanto de crítica social. O público do cinema seria, então, “um examinador que se distrai” (BENJAMIN, 2000, p. 252).
Entretanto, se, de fato, as artes haviam se tornado autônomas ou se libertado da submissão à religião, tornaram-se reféns das regras do mercado capitalista e se incorporaram aos domínios da indústria cultural. Chaui (2005) afirma que Benjamin desconsiderou o fato de que “a reprodução e a distribuição das obras seriam feitas por empresas capitalistas, visando ao lucro e não à democratização das artes” (p. 290).
Desse modo, a perda da aura não promoveu a democratização da arte: deu-se apenas a sua massificação, isto é, a sua comercialização em série. As obras de arte, originalmente críticas, expressivas e inovadoras, tiveram seus conteúdos simbólicos parcial ou mesmo totalmente anulados. Além disso, são convertidas em meros modismos, formas efêmeras, que só permanecem enquanto são potencialmente vendáveis.
Segundo Chaui (2005), a indústria cultural não tem quaisquer interesses democráticos. Ao contrário, ela promove a distinção entre os bens culturais pelo seu suposto valor de mercado, de modo que nem todos podem pagar por eles. Através da seleção de horários dos programas de rádio e televisão, de separação de preços dos jornais e revistas, ela seleciona de antemão o que cada um pode e deve ouvir, ver ou ler. Por fim, define cultura como lazer e entretenimento, extirpando das obras tudo o que represente trabalho da sensibilidade, da inteligência, da crítica e da reflexão. Afirmam Adorno e Horkheimer (1985):
Atualmente, a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural não precisa ser reduzida a mecanismos psicológicos. Os próprios produtos (...) paralisam essas capacidades em virtude de sua própria constituição objetiva. São feitos de tal forma que sua apreensão adequada exige, é verdade, presteza, dom de observação, conhecimentos específicos, mas também de tal sorte que proíbem a atividade intelectual do espectador, se ele não quiser perder os fatos que desfilam velozmente diante de seus olhos. (...) Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho (p. 119).
Admitir a democratização da arte pelas vias da reprodução técnica implica em destituir os significantes que lhe conferem singularidade, local histórico e valor cultural, pois eles não acompanham em anexo o célere binômio oferta-consumo advindo do capitalismo que o configura. Assim, a atividade artística e a produção cultural são espaços que exigem apreciação apurada e se dão de forma elaborada. A velocidade do fluxo comercial destas obras submetidas a industrializações, ditas democráticas, hipnotiza a massa consumidora, que não percebe absorver, a nível superficial, algo modificado desde o seu cerne.
A democratização das obras de arte, como desejava Benjamin, não ocorreu: nem todos têm acesso a elas, mesmo porque este é apenas parcial. A reprodução em série e descontextualizada oferece apenas a ilusão de que se teve contato com a obra artística.
REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor W. & HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. 2. ed. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: LIMA, Luis Costa. Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005.
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